Publicado o: 28/08/2012
Autor/s. :
GISELE MACHADO, ROSANA APARECIDA POSSENTI, EVALDO FERRARI JÚNIOR, VALDINEI TADEU PAULINO.
RESUMO:
Realizou-se o estudo para avaliar o teor de matéria seca em relação ao
tempo de desidratação em galpão, o teor de proteína bruta, de matéria
mineral, de fibra em detergente neutro e ácido, de hemicelulose e a
digestibilidade do capim Pennisetum hybridum cv. Paraíso, em três idades
de corte. O experimento foi instalado em área de 1,0 ha1, já implantado
com capim elefante Paraíso no Instituto de Zootecnia, Nova Odessa, São
Paulo. O delineamento experimental utilizado foi de blocos ao acaso, com
três repetições. Os tratamentos estudados foram três idades de corte
(45, 60 e 75 dias de crescimento). Avaliou-se o teor de matéria seca
(MS) do capim elefante Paraíso, com amostras coletadas nos tempos 0, 2,
4, 6, 24 e 30 horas de desidratação em galpão. As variáveis hemicelulose
e fibra em detergente neutro e ácido se elevaram com o avanço da idade
da planta. Houve decréscimo no teor de proteína bruta e na
digestibilidade in vitro. As idades de corte não tiveram efeito sobre o
teor de matéria mineral e a matéria seca foi incrementada com as idades
de corte, evidenciando uma perda de água maior nas primeiras horas de
desidratação.
Palavras-chave: fenação, forragem, nutrição animal, Pennisetum hybridum.
INTRODUÇÃO
Os estudos sobre a composição química de forrageiras
nos fornecem valiosas informações sobre seu valor nutricional,
levando-se em conta que há redução nos constituintes mais apreciáveis da
planta de acordo com a sua idade e com a parte utilizada (SANTOS et
al., 2001).
O capim elefante (Pennisetum purpureum) é espécie de
gramínea muito utilizada na produção de ruminantes e com grande
potencial forrageiro, sendo uma das mais utilizadas na alimentação de
ruminantes, principalmente em regiões tropicais e sub-tropicais. Quando
manejada adequadamente apresenta alto potencial de produção de matéria
seca, com proteína bruta variando de 12% a 20% nas folhas e
digestibilidade podendo alcançar até 70%, sendo muito utilizada na
pecuária leiteira (RIOS E PITMAN, 2001). Além de apresentar valor
nutritivo considerado de médio a bom, possui boa resistência à seca, à
pragas e doenças, e é utilizado com sucesso no pastejo rotativo (CAMURÇA
et al., 2002; JOBIM et al., 2006).
O capim elefante Paraíso (Pennisetum hybridum cv.
Paraíso), originário do cruzamento entre capim elefante (Pennisetum
purpureum cv. Schum) e milheto (Pennisetum glaucum (L) R.Br),
caracteriza-se por associar o potencial de produção de matéria seca do
capim elefante com a qualidade do milheto, é uma planta perene de porte
elevado, colmos eretos, folhas largas e compridas (30-120 cm),
inflorescência primária terminal do tipo panícula e abundante lançamento
de perfilhos aéreos e basais, podendo ser multiplicado por sementes,
diferentemente das demais variedades que se multiplicam vegetativamente
(PASSOS, 1999; FERRARI JUNIOR et al., 2009).
A qualidade da forragem é fortemente influenciada
pelo estádio de desenvolvimento da planta no momento do corte, devido às
diversas alterações que causam aumento de seus compostos estruturais:
celulose, lignina e hemicelulose. Essas alterações modificam a estrutura
vegetal, desta forma, com a maturidade apresentam menores teores de
nutrientes potencialmente digestíveis (REIS et al., 2001). De acordo com
VAN SOEST (1994), o aumento da idade da planta causa redução em sua
atividade metabólica, diminuindo a síntese de compostos proteicos,
ocasionando efeitos deletérios sobre o teor de proteína e na
digestibilidade das espécies tropicais. Em gramíneas tropicais a
utilização de intervalos longos entre cortes resulta em maior acúmulo de
massa seca, porém a proporção de colmos e o teor de fibra bruta também
aumentam, bem como os teores de fibra em detergente neutro e ácido e
lignina, ocasionando redução de seu valor nutritivo.
A fenação, segundo REIS et al. (2001) consiste,
basicamente, na conservação dos nutrientes da forrageira por meio de
desidratação rápida, pois a atividade respiratória das plantas e dos
microorganismos neste processo é paralisada. CAMURÇA et al. (2002),
citam que a utilização do processo de fenação tem importante papel no
manejo dos pastos, pois também permite um melhor aproveitamento dos
excedentes de forragens.
O objetivo deste trabalho foi avaliar o teor (%) de
matéria seca em relação ao tempo de desidratação em galpão, o teor de
proteína bruta, de matéria mineral, de fibra em detergente neutro e
fibra em detergente ácido, de hemicelulose e a digestibilidade in vitro
do capim elefante cv. Paraíso em três idades de corte.
MATERIAL E MÉTODOS
Instalou-se o experimento em área de 1,0 ha-1, já
implantado com capim-elefante cv. Paraíso no Instituto de Zootecnia,
Nova Odessa, São Paulo, latitude 22º46'32,38"S, longitude 47º17'34,21"O,
altitude 556 m. O solo do local classificado como Argissolo Vermelho-
amarelo, recebeu adubação com superfosfato simples (200kg ha-1), cloreto
de potássio (200kg ha-1) e sulfato de amônio (500kg ha-1) após corte de
uniformização realizado com colhedeira de forragem.
Os cortes para avaliação da forrageira foram
realizados às 10 h, com uma segadeira de forragem acoplada ao trator e
regulada para altura de corte a 15 cm do solo aproximadamente. Após
ceifado, o material foi processado em picadeira de forragem, regulada
para corte de 3 cm aproximadamente, sendo levado a seguir para um galpão
onde foi disposto sobre superfície cimentada para secagem. Escolheuse
utilizar o galpão para o processo de secagem, visto ser este período do
ano muito sujeito a mudanças climáticas.
O delineamento experimental utilizado foi de blocos
ao acaso, com três repetições. Os tratamentos estudados foram idades de
corte de 45, 60 e 75 dias de crescimento. Foram realizados 06 cortes
para avaliação das forragens nos dias 07/01/2008, 22/01/2008 e
07/02/2008. Durante a desidratação em galpão o material foi revolvido a
cada duas horas para uniformizar e acelerar o processo de desidratação,
até atingir o ponto de feno. Avaliou-se o teor de matéria seca em
relação ao tempo de desidratação em galpão, com amostras coletadas 0, 2,
4, 6, 24 e 30 horas de secagem, considerando como tempo zero o momento
da picagem do material.
Para determinação de proteína bruta (PB), matéria
mineral (MM), fibra em detergente neutro (FDN), fibra em detergente
ácido (FDA), hemicelulose e digestibilidade in vitro (DIVMS) tomaram-se
amostras a partir do momento do corte e no dia posterior, nos seguintes
horários: 10, 12, 14 e 16 h no primeiro dia, e mais duas amostras no dia
posterior às 9:00 e 15:00 h. Efetuaram-se seis amostragens em cada um
dos diferentes tempos de desidratação e as análises laboratoriais do
material amostrado foram realizadas no Laboratório de Bromatologia do
Instituto de Zootecnia de acordo com os métodos descritos em SILVA e
QUERIOZ (2009).
Os dados foram submetidos à análise de variância e
regressão, através do PROC GLM e PROC REG, respectivamente, do programa
Statystical Analyses System (SAS, 2006).
Os dados climáticos de precipitação, de temperaturas
máximas e mínimas observados durante a condução do ensaio experimental
são apresentados na Tabela 1.
Tabela 1. Dados de precipitação (mm) e temperaturas máximas e mínimas nos dias de corte do Pennisetum hybridum cv. Paraíso

RESULTADOS E DISCUSSÃO
O resumo das análises de variância e de regressão
referentes ao teor de MS do capim elefante cv. Paraíso, em função do
tempo de desidratação nas diferentes idades de corte, constam na Tabela
2.
Tabela 2.
Resumo das análises de variância e regressão do teor de matéria seca do
capim Pennisetum hybridum cv. Paraíso em diferentes idades de corte, em
função do tempo de desidratação em galpão

As análises estatísticas revelaram que houve efeito
significativo no teor de MS, a qual foi crescente com as idades de
corte, evidenciando perda de água maior nas primeiras horas de
desidratação. Uma característica importante desta espécie é a alta
proporção de folhas e a presença de caules finos, que juntamente com as
altas temperaturas ocorridas nos dias de corte facilitaram a aceleração
na desidratação garantindo a qualidade do feno.
Os teores de MS demonstraram efeito de ordem
quadrática em relação ao tempo de exposição aos 45, 60 e 75 dias de
corte (Figura 1). Este efeito quadrático na característica MS, corrobora
com resultados obtidos por ZOTTI et al. (2009) que determinando a curva
de desidratação do capim Paraíso, obtiveram o mesmo efeito observado no
presente trabalho. Estima-se que no corte aos 45 dias o ponto de
fenação pode ser alcançado com aproximadamente 41,02 horas; no corte aos
60 dias, com aproximadamente 29,25 horas; e aos 75 dias, com 28,31
horas, sendo que neste último corte foi o que proporcionou o ponto de
fenação em menor período de tempo. Valores superiores foram encontrados
por CAMURÇA et al. (2002), com capim elefante aos 50 dias, onde o ponto
de feno foi obtido com aproximadamente 72 horas de secagem ao sol.
Figura 1. Teores
de matéria seca (%) do feno de capim elefante cv. Paraíso em função do
tempo de desidratação em galpão (horas). Barras verticais indicam o erro
padrão (n=6, *P<0.05)

O resumo das análises de variância e de regressão
referentes à composição química do capim elefante cv. Paraíso, em função
das diferentes idades de corte, estão apresentadas na Tabela 3.
Tabela 3. Resumo
das análises de variância e regressão dos teores de proteína bruta
(PB), fibra em detergente neutro (FDN), fibra em detergente ácido (FDA),
digestibilidade in vitro da matéria seca (DIVMS), hemicelulose (HEMIC) e
matéria mineral (MM) do capim Pennisetum hybridum cv. Paraíso, em
função das idades de corte, com base na matéria seca

Para as variáveis proteína bruta e hemicelulose o
efeito do modelo quadrático se mostrou significativo ao nível de 5% de
probabilidade (Figura 2).
Figura 2. (A)
teor de proteína bruta (PB) e (B) teor de hemicelulose (HEMIC) do feno
de capim elefante cv. Paraíso em função de diferentes idades de corte.
(n=6, *P<0.05)

Observa-se que o teor de proteína bruta decresceu em
função do aumento nas idades de corte, como já era esperado, já que
existe grande variação na referida variável entre os diferentes estádios
de desenvolvimento da planta, ocorrendo declínio acentuado nesses
valores com o avanço da maturidade. Resultados semelhantes foram
encontrados por SOARES et al. (2009), no capim elefante cortado aos 30,
45 e 60 dias de idade, obtendo teores médios de 11,40%, 10,50% e 9,10%,
respectivamente. MARTINS-COSTA et al. (2008) encontraram valores
superiores para capimelefante, com médias de 16,09%, 17,35% e 15,70% aos
45, 60 e 75 dias.
A hemicelulose possui importante papel na
determinação da qualidade da forragem, pois a mesma está intimamente
ligada à lignina e à celulose, correspondendo, em média, por cerca de
20% da matéria seca das gramíneas tropicais (CARVALHO et al., 2003). O
fato de estar relacionada ao estádio de desenvolvimento da planta, ou
seja, quanto mais velha menor o teor de nutrientes digestíveis a mesma
possui, é comprovada pelos teores de hemicelulose obtidos, e que se
elevaram de acordo com a idade do corte. Resultado semelhante foi
apresentado por SANTOS et al. (2001) com médias que variaram de 29,75% a
31,58% de hemicelulose entre 0 a 45 cm de altura de corte, na cv. Roxo.
AGUIAR et al. (2006) avaliando feno de capim elefante cv. Cameroon,
encontraram valor médio de 22,40% de hemicelulose, quando este teve seu
corte aos 60 dias, ou seja, inferior aos valores deste estudo.
Efeito linear significativo (P<0,05) foi
verificado para as frações fibra em detergente neutro e ácido e para a
digestibilidade in vitro (Figura 3). A variável matéria mineral não
apresentou regressão significativa, levando a crer que independentemente
da idade do corte, os valores da matéria mineral da planta não
apresentam grandes variações.
O teor de fibra é determinante na qualidade da dieta
fornecida ao animal e tem a função de proteger o conteúdo celular e dar
sustentação às estruturas da planta (CARVALHO et al., 2003). A mesma
expressa a fração indigestível contida na parede celular da planta -
celulose, lignina, hemicelulose e pectina - por isso se eleva com o
avançar de sua idade dificultando o consumo e a digestibilidade da
forragem. Essas informações são confirmadas pelos valores obtidos pelas
frações de fibra em detergente neutro (FDN) e fibra em detergente ácido
(FDA). SANTOS et al. (2001) com a cv. Roxo encontrou valores superiores
para FDN e semelhantes para FDA. DERESZ et al. (2006) encontrou valores
de FDA na cv. Napier, variando de 37,34% a 41,99% como no presente
estudo, e para FDN resultados superiores, com média de 69,14%.
Resultados superiores para FDN e FDA foram verificados por MARTINS-COSTA
et al. (2008) com capim-elefante também aos 45, 60 e 75 dias. Soares et
al. (2009) no capim elefante, com idade de corte próxima ao do presente
estudo (30, 45 e 60 dias) obteve valores semelhantes para FDN, mas
inferiores para FDA.
A digestibilidade in vitro também decresceu, com os
teores médios variando de 67,39% a 63,10%. Teores semelhantes foram
relatados por DERESZ et al. (2006) avaliando capim elefante cv. Napier,
com valor médio de 63,77%, e por MARTINS-COSTA et al. (2008) com
capim-elefante obtendo valores máximos de 69,00% nas mesmas idades de
corte do presente estudo. Os valores obtidos por PAULINO et al. (2007)
com o capim Paraíso foram superiores, tendo como média, 70,30% de
digestibilidade in vitro.
Figura 3. (A)
digestibilidade in vitro da matéria seca (DIVMS), (B) teor de fibra em
detergente neutro (FDN) e (C) teor de fibra em detergente ácido (FDA) do
feno de capim elefante cv. Paraíso em função de diferentes idades de
corte. (n=6, *P<0.05)

CONCLUSÕES
O feno de capim-elefante cv. Paraíso nas três idades
de corte estudadas apresenta ótima composição químico-bromatológica
podendo ser utilizado na alimentação de ruminantes, mesmo levando-se em
conta o aumento nos constituintes da parede celular com o avanço da
idade de corte.
O processo de desidratação em galpão mostra-se
favorável pela obtenção de um produto final em curto período de tempo
além da facilidade de produção e armazenamento do material.
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