A génese da palavra «roça» carrega para São Tomé e Príncipe o
peso da sua memória e identidade. Do português “desbravar mato”, “abrir
clareiras” ou “terreno onde se roçou o mato”, a palavra “roça” deu
nome às estruturas agrárias que estiveram na base do desenvolvimento
deste pequeno arquipélago, durante o seu ciclo de cacau e café nos
finais do séc. XVIII e inícios do séc XX.
Antes de mais é necessário fazer a distinção entre roça de São Tomé e
Príncipe com roça do nordeste do Brasil. “Roça” no contexto brasileiro
significa “terreno de agricultura familiar”, usado, por exemplo, para o
cultivo da mandioca; já as plantações de cacau, café e de tabaco são
denominadas especificamente de “fazendas”. Em São Tomé e Príncipe, ”roça” simboliza
não apenas a estrutura de exploração do cacau e do café, mas sobretudo o
seu modelo de expansão e penetração no território, como uma célula que
se “desbrava” no território de geomorfologia complexa, e ocupada pelo “Obô“ [1]. Neste
sentido, será incorrecto ou no mínimo impreciso usar a denominação
fazenda para as estruturas agrárias de São Tomé e Príncipe ou roça para
as estruturas brasileiras de produção de cacau e café.
É também em São Tomé e Príncipe que a roça ganha força e imponência,
reclamando para si um carácter quase exclusivo pela forma como se
amarrou à sua cultura e à sua própria história.
No entanto, a relevância da roça não deve ser entendida apenas pelo
tipo de exploração e território onde está implantada. A sua
especificidade, no contexto da urbe de origem portuguesa, abarca
dimensões e características que a tornam ímpar, em comparação com os
modelos de exploração agrícola semelhantes.
roça de S.João dos Angolares
A roça e a ocupação do território
A roça, enquanto estrutura urbana, foi o principal motor de desenvolvimento de São Tomé e Príncipe. No contexto das ilhas atlânticas São Tomé e Príncipe apresenta vários factores comuns no processo de ocupação e colonização, quer com os arquipélagos da Madeira e Açores, quer com as ilhas de Cabo-Verde [2].
Entre esses factores estão: a introdução de uma de população livre e
de uma população de escravos; o desenvolvimento impulsionado pela
introdução de culturas agrícolas e ciclos produtivos, onde a exploração
comum de cana-de-açúcar no séc. XV gerou grande atracção de comerciantes
e mestres do açúcar; a instalação de estruturas agrárias modernas e
avançadas de exploração dos recursos da terra, com tentativas de
transplantação de culturas de subsistência do Mediterrâneo para as
ilhas, alterando a paisagem endémica; e por fim o cruzamento de
“europeus” e escravos africanos, gerando uma população livre e
consequente substituição gradual da classe esclavagista por uma classe
servil atenuada.
Este modelo de ocupação do território tem, do nosso ponto de vista,
influência nas estruturas agrícolas provenientes do Mediterrâneo, como
se pode verificar através do próprio modelo de expansão no Sul de
Portugal. As estruturas erguidas, tanto no Alentejo através dos “montes”, como em São Tomé e Príncipe através das roças, apresentam
semelhanças a nível de penetração no território, por intermédio de
núcleos e sub-núcleos interligados, que permitiram a fixação da
população. Adicionalmente, têm em comum o factor de exploração em
latifúndio, com os espaços senhorial, de equipamento e servil a
conviverem entre si [3].
Os vários modelos de roça
Os vários modelos de roça
A exploração intensiva e constante dos recursos num terreno complexo, composto por picos e vales profundos, aliada à procura da maior eficiência e produtividade, levou à criação de diversas estruturas de roça, dependendo da sua função produtiva e/ou localização. Este “coeficiente” gerou então o desenvolvimento das redes viárias, portuárias e ferroviárias.
expression locale qui signifie brousse dense, forêt tropicale de São Tomé.
A implantação das roças surgia habitualmente de uma “roça-sede”,
com dimensão e infra-estruturas que a tornavam praticamente sustentável
(encontramos como exemplos a roça Rio do Ouro, a roça Água Izé, ou a
roça Porto Alegre). As roças de menor dimensão poderiam estar associadas
à roça-sede, sendo então denominadas como “dependências” [4],
fazendo parte da mesma empresa agrícola, mas com uma função de pequena
produção ou escoamento rápido do produto (encontramos como modelo
exemplificativo a roça Fernão Dias, dependência da roça Rio do Ouro).
A criação das dependências tinha como finalidade o aumento da área de
influência de uma empresa agrícola, o escoamento do produto, ou a
produção de outras culturas, tais como: copra, proveniente do coqueiro, óleo de palma, gado, reserva florestal para produção de lenha, diferentes tipos de café ou mesmo culturas
de subsistência. As dependências eram assim espaços de permanente troca
de mercadorias, não apenas com o objectivo de exportação, mas
igualmente de abastecimento mútuo de produtos ou serviços, permitindo o
funcionamento produtivo da empresa ao longo de todo ano.
A organização interna da roça
A riqueza da roça não se restringe nem limita ao seu papel de agente estruturante do território. A organização interna da roça resultou no desenho de estruturas complexas, quer pelo seu programa, quer pelo seu enquadramento e implantação estratégica na paisagem, que permitiam a fixação de comunidades numerosas que, nas roças de maior dimensão, ultrapassavam um milhar de habitantes.
Os nomes poéticos dados às roças eram uma “mistura fina” entre a
referência às terras portuguesas (“Santa Margarida”, “Monte Mário”,
“Nova Cintra”, ou “São João”), e sensações ou sentimentos proporcionados
pelo seu enquadramento ( “Bela Vista”, “Boa Entrada”, “Caridade”,
“Desejada”, “Generosa” ou “Preseverança”).
Embora a estrutura da roça tenha sofrido uma constante evolução do
programa, devido à necessidade de adaptações físicas e técnicas da
actividade agrícola, mantêm componentes comuns como a Casa Principal, as
Habitações dos Encarregados, as Sanzalas (habitações dos serviçais), os
Armazéns, as Estufas e os Secadores. Esta era a base do programa, que,
conforme a dimensão e função produtiva já descrita, poderia conter ainda
equipamentos administrativos, assistenciais de saúde, de educação,
e religiosos.
Hôpital roça Agua Izé, île de São Tomé, 2008
As roças de maior dimensão apresentam um programa cuja riqueza as
transformam numa experiência de permanente surpresa e descoberta. Para
além de hospitais, escolas e capelas, as grandes roças podiam receber
também habitações individuais do feitor geral e dos empregados, fábricas
de óleo e sabão, carpintarias, serralharias, oficinas mecânicas,
cozinhas e lavadouros comunitários, fornos de cal, depósitos de água e
combustível, aquedutos, praças de touros, torres sineiras e de vigia,
pombais, teleférico de transporte de mercadoria entre outros. Pela sua
excelência de localização e evolução tecnológica, algumas roças poderiam
conter ainda complexos sistemas de captação de água para produção
eléctrica (como na roças Bombaim e Rio do Ouro), aproveitando assim os
recursos naturais fornecidos pela ilha dotando cada roça de
particularidades únicas.
O fenómeno da roça, nas suas múltiplas variáveis programáticas, partia do “Terreiro”,
o seu espaço central e orientador. Era o centro nevrálgico para onde
convergiam mercadorias e produtos, patrões e serviçais, marcando sem
excepções o compasso da sua rotina.
Assumindo maioritariamente a forma rectangular, o “Terreiro”,
podia conter várias formas e estruturas: sob um eixo orientador,
designando-se “roça-avenida”; sob diferentes cotas com dois ou mais
terreiros dando maior dinamismo, denominando-se “roça-cidade”; ou sob a forma quadrangular, encerrando as quatro frentes, a “roça-terreiro” [5].
Maison principale roça Porto Real, île de Príncipe, 2008
No entanto, no desenho do terreiro, os elementos de maior
importância e imponência, como a casa principal ou o hospital, estavam
estrategicamente implantados de forma a reforçar a hierarquia e da
ideologia corrente, alinhados sob o eixo orientador e/ou implantados
nos pontos de maior altitude e visibilidade.
Os processos construtivos e estilísticos dos principais edifícios das
roças eram em parte consequência do impulso industrial e da importação,
por via marítima, de materiais industriais pré-fabricados, com
referências arquitectónicas de fácil adaptação ao clima severo
e tropical.
Ao analisar a amostra de casas principais, encontramos referências à
moda estilística europeia vivida à época da habitação unifamiliar, como o
Chalet, sob uma matriz de estilo colonial, dotando a habitação
de uma grande funcionalidade, com largas varandas e coberturas
avançadas tipo ”Lusatite” e telha Marselha,
com a integração de variantes e particularidades conforme o gosto
próprio do seu proprietário, através dos remates e ornamentos na sacada
em madeira.
Os hospitais, por sua vez, apresentam-se como símbolo da modernidade.
Eram resultado dos factores técnicos de salubridade existentes,
aparecendo assim elevados cerca de um metro do solo apoiados em arcos de
alvenaria de pedra. A sua tipologia revela também influência funcional
das unidades terapêuticas existentes em Portugal, através do seu desenho
de corpo central e duas alas, com métrica de vãos e de fachada muito
marcada, fazendo a distinção entre as alas de enfermarias para homens,
mulheres, crianças, serviçais ou feitores e administradores. Podemos
observar estes elementos nos hospitais de Água Izé, Rio do Ouro
ou Sundy.
Vue sur l’avenue de la roça Rio do Ouro, île de São Tomé, 2008
As Sanzalas eram as habitações dos serviçais contratados, sendo o
reflexo da condição dos seus habitantes, impostas durante este ciclo de
desenvolvimento. De enorme simplicidade funcional, material e
construtiva, serviam apenas de dormitório e tinham pouco mais de 14 m2.
A sua disposição, em grupos de 8 a 10 unidades, dependia da necessidade
de controlo dos trabalhadores: em forma de bairro e filas paralelas
como na roça Boa Entrada, lembrando as vilas operárias portuguesas, ou
em redor do terreiro nos casos mais severos, como na roça
Santa Margarida.
As edificações agroindustriais, como os secadores e armazéns,
ocupavam a grande maioria da área construída da roça. Sem grande
imponência e detalhe nos processos construtivos, desempenhavam um papel
determinante no seu funcionamento agrícola.
Os secadores permitiam a secagem rápido do produto protegendo-o assim
das chuvas constantes, no entanto, outros sistemas adoptavam um
processo de secagem ao sol, que através de tabuleiros retrácteis
distribuídos no espaço do terreiro eram recolhidos para um terreiro por
meio de carris.
Neste capitulo, as estruturas das roças demonstram uma grande
variedade determinada pela constante evolução das suas necessidades, bem
como pela transformação dos processos produtivos ao longo dos tempos.
No entanto, essa diversidade, numa análise global rege-se por padrões e
influências comuns, representando assim um exemplo de excelência no
panorama do património agrícola mundial.
Hôpital roça Agua Izé, île de São Tomé, 2008
Conclusão
A roça é, em São Tomé e Príncipe, o reflexo da sua própria memória e identidade. Nos períodos de ciclos produtivos activos e de crescimento, o homem avança face à natureza. Em períodos de estagnação, a natureza prospera devido ao seu clima tropical.
Afastando-nos do contexto ideológico subjacente ao desenho da sua
estrutura, a importância da roça compreende um valor incomparável, desde
a forma como se instala e penetra no território, até à expressão
arquitectónica, transformando-se no ícone cultural e de identidade do
povo são-tomense. A roça representa o marco histórico mais relevante da
história de São Tomé e Príncipe, que importa salvaguardar. Simbolizam
sem grau de comparação no arquipélago, as estruturas funcionais que mais
se tornaram notáveis, pela sua dimensão, imponência, e relevância
urbanística e cultural. São verdadeiros “monumentos” que marcaram a
história de São Tomé e Príncipe, representando não apenas o paradigma da
sua arquitectura, mas também do próprio país e da sua própria cultura.
São, sem dúvida, a memória e herança mais profunda do povo são-tomense.
IICT, Carte de l’île de São Tomé 1901
São Tomé e Príncipe depara-se hoje, mais uma vez, com a sistemática
luta entre o homem e a natureza, sob a ameaça de um novo ciclo que
pretende conduzir o arquipélago ao seu desenvolvimento económico. A
ameaça de novos ciclos desordenados, sejam o “ciclo do petróleo” ou o “ciclo do turismo”, deve ter presente esta herança, deixada pelos ciclos anteriores.
A roça é o principal factor de ordenação territorial, sendo ainda
hoje o espaço de vivência e de trabalho da maioria das comunidades
locais. Embora o passar do tempo tenha alterado o seu genius loci [6],
a recuperação da roça enquanto património agrícola mundial tem enormes
potencialidades, e este é um recurso que deve ser identificado como tal.
A dotação de infra-estruturas preexistentes pode constituir a alavanca
para a sua reinvenção e reconversão, fazendo a transição entre o ciclo
colonial e o ciclo cultural, através de projectos ecoturísticos e
ancorados à sua actividade agrícola.
De facto, é possível olhar o desenvolvimento de São Tomé e Príncipe sem olhar ao paradigma da roça, no entanto, nesse caso corremos o risco de se estarmos a criar “roças-turismo”, nichos
de excelência ou condomínios privados, numa atitude de “abrir
clareiras” e “desbravar mato” ignorando as condições de vida da
população e a sua herança patrimonial. Ou seja, a descaracterização da
roça levará à perda da sua relevância cultural e consequente perda de
valor patrimonial, que lesará gravemente a cultura e a memória de São
Tomé e Príncipe.
Deste modo, fica a questão: Que papel terá Portugal, no quadro da sua
responsabilidade histórica e cultural, na salvaguarda e recuperação da
herança da roça como forma de desenvolvimento? Estará a roça
condenada a ser também mais um exemplo de perda de identidade e memória
de um património no mundo?
Texto publicado originalmente na Revista Monumentos n.32, Dezembro 2011.
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FERNANDES, José Manuel - Arquitectura e Urbanismo na África Portuguesa.
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LOUREIRO, João - Postais Antigos de São Tomé e Príncipe. Lisboa: ed.autor, 1999.
MAGALHÃES, Ana; GONÇALVES, Inês - Moderno Tropical - Arquitectura em Angola e Moçambique 1948-1975. Lisboa: Tinta da China, 2009.
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NASCIMENTO, Augusto, «S.Tomé e Príncipe» . Nova História da Expansão Portuguesa. Lisboa: Editorial Estampa, 1986, Volume X: O Império Africano 1825-1890, pp. 269-318, Volume XI: O Império Africano. 1890-1930, pp. 201-258.
TENREIRO, Francisco José - A floresta e a ocupação humana na ilha de São Tomé. Lisboa: Revista da Junta de Investigação do Ultramar (Vol. 9 – nº 4), 1961.
TENREIRO, Francisco José – A Ilha de São Tomé. Lisboa: Memórias da junta de investigações do ultramar, 1961.
Notas[1] “Obô”: expressão local que significa mato denso, floresta tropical de São Tomé.
[2] Poderíamos referir também as ilhas de Fernando Pó (actual Bioko) e Ano Bom, localizados no Golfo da Guiné e de possessão portuguesa entre 1474 e 1778.
[3] É possível constatar essa matriz não só nas estruturas alentejanas mas também nas «quintas» do Ribatejo, Beiras e Douro. São no entanto estruturas com escalas, territórios e determinações bastante distintas que não importa aqui especificar.
[4] Dependência: roça satélite de menor escala. Poderia estar ligada directamente à roça sede ou ser totalmente auto-suficiente.
[5] Esquema maioritariamente adoptado pelas roças de menor dimensão.
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