Jorge Ribaski, Luciano Javier Montoya, Honorino Roque Rodigheri
Introdução
Com o recente reconhecimento e a
conscientização da importância dos valores ambientais, econômicos e
sociais das florestas, pode-se perceber, no cenário mundial, fortes
tendências para mudanças significativas na forma de uso da terra, com a
utilização de sistemas produtivos sustentáveis que considerem, além da
produtividade biológica, os aspectos sócio-econômicos e ambientais.
Diante desse fato, e dado ao caráter de múltiplo propósito das árvores,
os Sistemas Agroflorestais (SAFs) constituem-se em alternativas
sustentáveis para aumentar os níveis de produção agrícola, animal e
florestal.
Os SAFs referem-se a uma ampla
variedade de formas de uso da terra, onde árvores e arbustos são
cultivados de forma interativa com cultivos agrícolas, pastagens e/ou
animais, visando a múltiplos propósitos, constituindo-se numa opção
viável de manejo sustentado da terra. Esses sistemas são classificados
de acordo com a natureza e arranjo de seus componentes, podendo ser
assim denominados: Silviagrícolas, aqueles constituídos de árvores e/ou
de arbustos com culturas agrícolas; Silvipastoris, cultivos de árvores
e/ou de arbustos com pastagens e/ou animais; e Agrossilvipastoris,
cultivo de árvores e/ou arbustos com culturas agrícolas, pastagens e/ou
animais (Medrado, 2000).
O objetivo desses sistemas é a
criação de diferentes estratos vegetais, procurando imitar um bosque
natural, onde as árvores e/ou os arbustos, pela influência que exercem
no processo de ciclagem de nutrientes e no aproveitamento da energia
solar, são considerados os elementos estruturais básicos e a chave para a
estabilidade do sistema. No Brasil, diagnósticos regionais e
resultados de pesquisas
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demonstram que os SAFs são de
grande aplicabilidade em áreas com atividades agrícola e pecuária.
Vários autores têm postulado que os SAFs respondem em parte a problemas
de desmatamento e degradação de diferentes ecossistemas (Montoya, 2000;
Ribaski & Montoya, 2000 & Sánchez, 2000). Por meio deles é
realizado um melhor aproveitamento dos diferentes estratos da vegetação
obtendo-se com isso, melhor diversificação da produção, do uso da terra,
da mão-de-obra, da renda e da produção de serviços ambientais. Os SAFs
também apresentam-se como eficientes reservatórios de gás carbônico
(CO2) e constituem-se em fonte renovável de energia, além de
prestarem-se à recuperação de solos marginais e/ou degradados.
Benefícios dos SAFs para as Condições Ambientais
Entre os benefícios ambientais
dos SAFs, destacam-se o melhor controle de temperatura, da umidade
relativa do ar e da umidade do solo. Esses elementos climáticos
alteram-se bastante em condições de áreas abertas, sem árvores. Nos
SAFs, a presença do componente arbóreo contribui para regular a
temperatura do ar, reduzindo sua variação ao longo do dia e,
conseqüentemente, tornando o ambiente mais estável, o que traz
benefícios às plantas e aos animais componentes desses sistemas.
Porfírio da Silva et al. (1998), constataram que a presença da espécie arbórea Grevillea robusta,
em pastagens da região noroeste do Paraná, teve influência sobre
algumas variáveis microclimáticas como a temperatura e a umidade do ar
e, por conseguinte, no déficit de pressão de vapor d'água. Segundo os
autores, as quedas de temperatura impostas pela sombra das árvores
refletem em rápidas diminuições de pressão de vapor d'água, o que traz
conseqüências positivas ao desenvolvimento da pastagem, favorecendo seu
crescimento pelo aumento da sua transpiração. O microclima existente
debaixo da copa das árvores beneficia os animais domésticos, mantendo-os
confortáveis à sombra, ao contrário da exposição à insolação direta ou
às baixas temperaturas do inverno (Montoya & Baggio, 1992). Esse é
um aspecto importante, pois os bovinos tendem a pastejar
preferencialmente nas horas mais frescas do dia e, certamente, em não
havendo o componente arbóreo como agente regulador de temperatura, o
consumo da pastagem torna-se limitado, tanto por razões de desequilíbrio
do balanço térmico quanto por restrições do horário de pastejo.
Outra alteração causada pela
presença das árvores nos SAFs, diz respeito à temperatura do solo que,
normalmente, é menor no interior da floresta. Isto evidencia a
importância do estrato herbáceo e da serapilheira como agentes
reguladores das condições térmicas no solo da floresta. O principal
efeito do sombreamento, proporcionado pelas árvores, é sobre as
temperaturas extremas da superfície do solo, as quais diminuem
significativamente. A modificação do microclima, na presença do
componente arbóreo, repercute sobre o balanço hídrico do solo,
contribuindo para a elevação da umidade disponível para as plantas sob a
copa das árvores (Ovalle & Avendaño, 1994). Maiores teores de
umidade nos solos debaixo de coberturas florestais, também foram
observados por Bhojvaid & Timmer (1998), o que foi atribuído à
redução da radiação que chega ao solo, que influi significativamente na
taxa de evaporação de água, concorrendo para a manutenção da sua
umidade.
O maior teor de umidade no solo
favorece a atividade microbiana, resultando em aceleração da
decomposição da matéria orgânica e possibilitando o aumento da sua
mineralização. Hang et al. (1995) avaliando um sistema silvipastoril, no
semi-árido argentino, constataram que durante um ano seco, uma única
chuva induziu aumento marcante na mineralização de nutrientes,
destacando que nesse processo o nitrogênio correlacionou-se
significativamente com a umidade no solo.
Com relação aos ventos, sabe-se
que, tanto as culturas agrícolas, quanto as pastagens podem ter seu
crescimento comprometido devido a danos físicos causados pela agitação
mecânica. Submetidas a ventos fortes, as folhas batem-se umas nas
outras, dobram-se e, com freqüência, são rotacionadas sobre o eixo
longitudinal de suas hastes. Esses movimentos, em geral, produzem
quebras permanentes, murchamento, dessecação, cloroses e necroses nas
pontas das folhas. A atenuação da velocidade do vento, obtida pela
presença organizada de árvores como quebra-ventos, pode resultar em
incremento do rendimento das culturas agrícolas e das pastagens devido
à: economia de água - resultante da menor evaporação do solo e das
plantas; menor oscilação das temperaturas diurnas e noturnas, o que
evita choques térmicos; redução dos riscos de danos físicos nas folhas; e
otimização do suprimento de CO2.
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Benefícios dos SAFs na Fertilidade do Solo
As espécies arbóreas melhoram os
solos por numerosos processos, principalmente quando são usadas em SAFs,
onde as espécies são cultivadas na mesma área. As árvores influenciam
na quantidade e na disponibilidade de nutrientes dentro da zona de
atuação do sistema radicular das culturas associadas, através do
acréscimo de nitrogênio pela fixação biológica de N2, da recuperação de
nutrientes abaixo do sistema radicular das culturas agrícolas e/ou
pastagens, da redução das perdas de nutrientes por processos como
lixiviação e erosão e do aumento da disponibilidade de nutrientes pela
sua maior liberação na matéria orgânica do solo. As raízes profundas das
árvores podem interceptar os nutrientes que foram lixiviados das
camadas superficiais e se acumularam no subsolo, geralmente fora do
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do sistema radicular das
culturas agrícolas e/ou pastagens, e retorná-los à superfície na forma
de serapilheira. Pesquisas na parte ocidental do Quênia, na África,
mostraram que árvores de crescimento rápido como Calliandra calothyrsus, Sesbania sesban e Eucalyptus grandis,
com alta exigência em nitrogênio, retiraram nitrato do subsolo, que
estava acumulado sob o sistema radicular de culturas agrícolas anuais
(Buresh & Tian, 1997). Também na África, árvores dispersas,
particularmente em regiões semi-áridas, são reconhecidas e difundidas
como ilhas de solos melhorados (Rhoades, 1997). A espécie Faidherbia albida é
conhecida pelo seu "efeito albida", que se refere ao maior
crescimento/rendimento das culturas ou plantas herbáceas debaixo da copa
das árvores quando comparado ao crescimento/rendimento dessas plantas
em campo aberto (Buresh & Tian, 1997). Numerosos estudos mostram que
a quantidade de matéria orgânica (M.O.) é mais alta na camada
superficial dos solos debaixo de árvores do que em áreas abertas (Buresh
& Tian, 1997; Kang, 1997; Rao et al. , 1997; Bhojvaid & Timmer,
1998 e Ribaski, 2000). Por exemplo, num sistema agroflorestal com Leucaena leucocephala,
Kang (1997) faz referência à obtenção de 12,3 g/kg de carbono (C)
debaixo das copas das árvores e 9,4 g/kg entre as fileiras, em
comparação com 5,9 g/kg de C nas parcelas sem árvores.
As árvores também podem
contribuir para o processo de restabelecimento da fauna do solo, fator
importante para a decomposição de resíduos de plantas. A decomposição de
M.O. é amplamente controlada pela biota do solo, particularmente a
macrofauna (Tian et al ., 1992). Esses microorganismos são
importantes para disponibilizar os nutrientes nos sistemas de baixo
"input", onde as culturas, em grande parte, dependem de nutrientes
liberados de materiais orgânicos ao invés de fertilizantes inorgânicos.
Na Índia, estudos realizados para determinar os efeitos das árvores (Prosopis juliflora)
de 5, 7 e 30 anos de idade, sobre as propriedades físicas, químicas e
biológicas do solo, mostraram que o crescimento das árvores alterou o
microclima e a umidade do solo, e aumentou a concentração de M.O. e os
teores dos nutrientes potássio (K), cálcio (Ca) e magnésio (Mg)
trocáveis, melhorando a fertilidade do solo (Bhojvaid & Timmer,
1998).
Nas áreas cultivadas do planeta, depois da água, o nitrogênio (N) é o nutriente mais limitante do crescimento e da produção das plantas. Normalmente são adicionados aos solos fertilizantes nitrogenados visando a melhoria da produtividade dos cultivos. Entretanto, nos países do terceiro mundo, essa prática de manejo, eficaz e proveitosa, está limitada a poucos cultivos, pois raramente o pequeno produtor utiliza esse insumo agrícola de alto custo nas culturas de subsistência.
Algumas árvores usadas em SAFs,
principalmente as leguminosas, têm potencial para fornecer nitrogênio em
quantidades suficientes para aumentar a produção das culturas
associadas. A Sesbania sesban é capaz de substituir a aplicação
de fertilizantes nitrogenados para se obter rendimentos de milho de
aproximadamente 4 t/ha (Sanchez & Palm 1996). Na associação do
cultivo de feijão e milho com bracatinga (Mimosa scabrella),
Carpanezzi & Carpanezzi (1992) constataram que a espécie florestal
fornece ao solo quantidades consideráveis de N, K, Ca, Mg e fósforo (P).
Admitindo-se que 75% do nitrogênio total, oriundo da biomassa decídua,
seja assimilável em relação ao nitrogênio fornecido pela adubação
mineral, a bracatinga seria capaz de complementar a aplicação do
fertilizante químico na ordem de 49 kg/ha.
Os "inputs" orgânicos também têm
importante vantagem sobre os fertilizantes inorgânicos, com relação ao
efeito residual e à sustentabilidade. Grande parte do nitrogênio que
existe na cobertura morta e que não é aproveitado pelas culturas, fica
incorporado de forma ativa ou pouco ativa dentro da matéria orgânica do
solo, enquanto que parte considerável do nitrogênio proveniente dos
fertilizantes químicos, não aproveitado pelas culturas, fica sujeito a
perdas por lixiviação e por desnitrificação.
Nos SAFs, a sombra produzida
pelas árvores é um dos fatores responsáveis pelo aumento da
disponibilidade de nitrogênio no solo, pois evidências mostram que a
taxa de mineralização é estimulada pelo sombreamento. De acordo com
Wilson (1990), a melhoria do ambiente do solo sob a copa das árvores,
possibilita atividade microbiana mais efetiva na decomposição da matéria
orgânica, o que resulta numa maior liberação do nitrogênio
mineralizado. Esta influência é particularmente importante na
agricultura onde o nível de nitrogênio do solo constitui em limitação ao
desenvolvimento das culturas agrícolas ou pastagens.
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Benefícios dos SAFs sobre os Cultivos Associados
A presença do componente arbóreo
nos SAFs pode influir de maneira diferente no desenvolvimento do estrato
vegetal herbáceo, pois suas raízes competem com as raízes das plantas
herbáceas e a sua copa intercepta a luz necessária para a fotossíntese.
Assim, o crescimento das culturas em associação com espécies arbóreas
pode ser prejudicado ou favorecido, dependendo de fatores como o grau de
sombreamento proporcionado pelas árvores, a competição entre as
plantas, com relação à água e nutrientes no solo, e a tolerância das
espécies à sombra. A tolerância ao sombreamento, condição essencial em
associações entre culturas agrícolas e pastagens com árvores, pode
variar sensivelmente entre espécies. Por exemplo, muitas gramíneas
crescem melhor debaixo da sombra da copa das árvores e produzem maior
quantidade de forragem, além de possuírem melhor qualidade nutritiva
(menor conteúdo de fibra e maior conteúdo de proteína bruta) quando
comparadas às que crescem a pleno sol.
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No cerrado brasileiro, Carvalho et al. (1997) observaram que a produção de matéria seca de seis gramíneas forrageiras estabelecidas em sub-bosque de angico-vermelho (Anadenanthera macrocarpa) foi afetada de modo diferente pelas condições ambientais prevalecentes, advindas da competição com a espécie arbórea. Na Costa Rica, Bustamante et al. (1998), ao avaliar oito espécies de gramíneas em monocultura e associadas à Erythrina poeppigiana, também constataram que a tolerância das gramíneas forrageiras à sombra foi bastante variável. Entretanto, a maioria delas foi beneficiada pela presença da leguminosa arbórea, produzindo mais biomassa por hectare que quando cultivada pura.
Acredita-se que os SAFs promovam
ciclagem de nutrientes mais eficiente do que aquela que ocorre nas
lavouras e pastagens tradicionais sem árvores. Essa hipótese é baseada
parcialmente em estudos realizados em ecossistemas de florestas naturais
e na suposição de que as árvores nos SAFs transferirão de forma
semelhante os nutrientes para as culturas associadas. De acordo com
Botero & Russo (1998), a ciclagem de nutrientes minerais, em termos
de sustentabilidade, é maior nos sistemas silvipastoris que nas
pastagens tradicionais sem árvores. No Vale do Cauca, na Colômbia, as
análises dos teores de nutrientes nas fezes de vacas lactantes, que
pastejavam num sistema silvipastoril com Pithecellobium dulce associado às forrageiras Brachiaria decumbens e Centrosema ocutifolium, foram comparadas com os teores dos mesmos elementos encontrados nas fezes dos animais que pastejavam Brachiaria decumbens pura.
Os resultados mostraram superioridade no sistema silvipastoril, em
termos de concentração dos elementos na matéria seca, para todos os
nutrientes analisados nas fezes.
O aumento da concentração de
nitrogênio em plantas cultivadas sob intensidade luminosa reduzida, de
forma artificial ou na presença de um componente arbóreo, ocorre com
bastante freqüência (Wilson, 1990; Carvalho et al ., 1997; Ramírez, 1997
e Ribaski, 2000) e pode ser considerado como um dos fatores
responsáveis pela melhoria da qualidade da pastagem, o que favorece a
produção animal. Alpízar (1985), na Costa Rica, ao realizar avaliações
de reservas orgânicas e minerais de uma pastagem de Cynodon plectostachyus em condições de monocultivo e associadas à E. poeppigiana e Cordia alliodora,
concluiu que os pastos sombreados pelas árvores apresentaram melhor
qualidade nutritiva, uma vez que os percentuais de nitrogênio
encontrados na forragem debaixo de E. poeppigiana e C. alliodora foram
considerados adequados para suprir as necessidades nutritivas de
bovinos; o mesmo não ocorreu com os teores de nitrogênio presentes na
pastagem sem árvores.
Na exploração de plantas
forrageiras, um dos aspectos mais importantes a ser considerado é o
valor nutritivo, o qual é definido em função da composição química e da
digestibilidade da forragem produzida. A associação de pastagens com
árvores pode trazer benefícios em termos de disponibilidade e de valor
nutritivo da forragem, tendo em vista a característica apresentada por
diversas espécies arbóreas em adicionar nutrientes ao ecossistema,
principalmente em se tratando de leguminosas arbóreas fixadoras de
nitrogênio (Alpízar, 1985). Ramírez (1997) concluiu que a inclusão das
leguminosas arbóreas Prosopis juliflora e L. leucocephala em pastagens de C. plectostachyus teve
um efeito positivo sobre a composição química do solo, com respeito ao
N, C, P, Ca, Mg e K, devido a maior aporte de matéria orgânica no solo
e, consequentemente, maior ciclagem de nutrientes. Esses fatores
aumentaram a produção e a qualidade nutritiva de forragem da gramínea,
além de possibilitar maior disponibilidade de material forrageiro total
consumível no sistema.
Diversas espécies de gramíneas,
ao se desenvolverem debaixo da copa das árvores, apresentam maior
concentração de proteína bruta (PB), quando comparadas àquelas que
crescem em plena exposição solar (Botero & Russo, 1998; Hernández et
al ., 1998 e Ribaski, 2000). O processo de amadurecimento fisiológico
da pastagem implica em redução de sua qualidade, principalmente pela
diminuição dos teores de PB e aumento da concentração de fibras. A baixa
concentração de proteína na dieta resulta em baixa digestibilidade de
suas fibras. Dessa forma, as árvores, ao promoverem o sombreamento das
pastagens, reduzem os extremos microclimáticos, proporcionando elevação
do conteúdo protéico e favorecendo a digestibilidade da forragem obtida.
Entretanto, na literatura existem resultados bastante conflitantes com
relação à influência da intensidade luminosa sobre a digestibilidade. De
acordo com Samarakoon et al . (1990), o efeito do sombreamento
na digestibilidade "in vitro" pode ser positivo, negativo ou nulo,
dependendo do balanço das alterações nos demais componentes dos tecidos
vegetais. Assim sendo, não é possível generalizar nem prever a extensão
em que a digestibilidade de uma determinada espécie será alterada quando
cultivada à sombra.
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Os SAFs na Recuperação de Áreas Degradadas
O tema recuperação de áreas
degradadas tem sido objeto de numerosos estudos, constituindo-se numa
linha de pesquisa prioritária, em razão do grau avançado de perturbação
que atinge, tanto grandes áreas de proteção ambiental como do setor
agrícola e industrial, com o uso de tecnologia moderna. Pesquisas sobre a
recuperação de áreas degradadas, inicialmente davam ênfase a trabalhos
de revegetação, baseados na intervenção no ambiente (substrato,
vegetação, fauna, etc.), corrigindo ou acrescentando o cenário anterior à
degradação. Visavam ao estabelecimento de um "tape verde" (efeito
paisagismo) com espécies agressivas e de rápido crescimento. Atualmente,
outra estratégia na recuperação é baseada no principio da sucessão
ecológica que consiste na implantação de espécies pioneiras, iniciais e
tardias até chegar ao clímax; é a mudança temporal da composição em
espécies e da estrutura de comunidades em uma área. É o processo que
ocorre mediante a substituição de espécies em relação as suas adaptações
ao substrato, à irradiação luminosa e à competitividade, culminando em
sistemas mais estruturados, diversos e complexos que os iniciais
(Poggiani, 1990; Maschio et al ., 1992; Curcio et al. , 1998).
O uso dos SAFs na recuperação de
áreas degradadas vem sendo objeto de numerosos estudos (Budowski,1981;
Nair, 1987). Hoje os SAFs não apenas encerram a idéia de recuperação de
áreas degradadas (restauração ecológica), mas carregam uma abordagem
holística, envolvendo aspectos sociais, econômicos e ambientais. O
potencial dos SAFs para a recuperação, conservação e aumento da
fertilidade do solo está baseado na acumulação de dados
técnico-científicos que mostram que as árvores e outros tipos de
vegetação, quando associadas com outros componentes, cultivos agrícolas
ou pastagens, exercem influência positiva sobre a base do recurso da
qual o sistema depende (Budowski, 1981, Wiersum, 1986; Szott et al .,
1991, Ribaski, 2000). Desse modo, as práticas agroflorestais podem ser
aplicadas de diversas formas na recuperação de solos degradados. Baggio
(1992) e Carpanezzi (1998) mencionam que a chave para o sucesso de um
SAF está na escolha da espécie arbórea, dos componentes do sistema e do
regime de manejo. A seguir são apresentadas algumas formas de degradação
dos solos e os principais benefícios das práticas agroflorestais na
recuperação de áreas degradadas:
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- áreas desmatadas e degradadas pela derrubada e queima de árvores, que favorecem a emissão de gases como o CO2, a exposição do solo diretamente à chuva, o que provocando erosão e assoreamento dos rios, desequilíbrios na flora e fauna, com conseqüente empobrecimento biológico. Essas áreas podem ser melhoradas e/ou recuperadas pela aplicação de práticas agroflorestais como o sistema taungya, cultivos seqüenciais, pousio melhorado, árvores multiestrato, espécies de uso múltiplo, entre outros.
- áreas erodidas pela água de
chuvas, acarretando perdas de solo, reduzindo sua capacidade para
armazenar nutrientes e água, provocando alto índice de escorrimento de
solo e compactação do solo. Essas áreas degradadas podem ser
recuperadas pela utilização de práticas agroflorestais como barreiras
vivas, formação lenta de terraços para uso agrícola, estabilização de
voçorocas, cultivos em renques, árvores em contorno e árvores sobre
curvas de nível, entre outras.
- áreas de baixa fertilidade e
mal drenadas que, geralmente, provocam perdas de matéria orgânica e de
nutrientes, principalmente de nitratos, e impedimentos físicos ao
desenvolvimento de raízes, com crescimento reduzido de árvores e de
deficiência de nutrientes nos cultivos anuais. Podem ser recuperadas
com práticas agroflorestais como cultivos em renques, cultivos em
faixas, folhagem florestal como fonte de adubo, árvores em torno de
cultivos agrícolas e de pastagens, entre outros.
- áreas secas (áridas) com
solos com camadas duras, apresentando dificuldade de armazenar água e
nutrientes; altas temperaturas afetando a evapotranspiração e o lençol
freático. Podem ser recuperadas com a utilização de práticas
agroflorestais como barreiras vivas, quebra-ventos, cercas vivas,
árvores em torno de cultivos e pastagens, entre outros.
- áreas de encostas
(declividade acentuada); geralmente são áreas desprovidas de florestas,
com alto índice de erosão e com dificuldade na formação de uma
cobertura permanente do solo. Podem ser recuperadas pela utilização de
práticas agroflorestais como fileira de árvores sobre terraços, cultivo
em faixas e barreiras vivas.
- áreas de pousio e/ou áreas
marginais, de pouco valor ecológico e econômico. Podem ser recuperadas
por práticas agroflorestais como pousio melhorado e árvores em
multiestratos.
- áreas de pastagens degradadas
com cobertura vegetal deficiente, expondo o solo aos efeitos
prejudiciais da erosão hídrica e eólica. Podem ser recuperadas por
práticas agroflorestais como arborização de pastagens e bancos
forrageiros, entre outros.
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Sistemas Agroflorestais e os Impactos Sócio-econômicos
A atividade florestal brasileira
representa 2,2% do produto interno bruto (PIB), verificando-se
exportações da ordem de 3,3 e 3,5 bilhões de dólares nos anos de 1997 e
1999, respectivamente, com uma participação equivalente a 7,0% das
exportações brasileiras, superadas apenas pela soja. Essa atividade é de
significativa importância social, pois assegura a manutenção de 700 mil
empregos diretos e 2 milhões de empregos indiretos (SBS, 1998), onde
não existe sazonalidade na utilização de mão-de-obra, pois as demandas
caracterizadas pelas diferentes atividades inerentes ao setor florestal
são contínuas ao longo do tempo. De acordo com dados da SBS (1998), a
demanda anual de madeira no Brasil é estimada em 350 milhões de metros
cúbicos, sendo que a produção de florestas plantadas, principalmente,
com espécies dos gêneros Eucalyptus e Pinus, não
atinge a metade dessa necessidade. Há, portanto, um déficit
significativo de madeira que vem sendo suprido através do corte de
florestas naturais. Além da utilização da madeira para fins diversos,
destaca-se também a crescente demanda por produtos não madeiráveis, como
resinas, látex, produtos alimentícios, taninos, matéria prima para a
industria farmacêutica e plantas medicinais.
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Essa mesma tendência se observa
também em nível mundial, onde cresce sensivelmente a demanda por
produtos de base florestal. Assim, a introdução de árvores nas
propriedades rurais, através das diferentes modalidades agroflorestais,
representa importante papel na sustentabilidade dos diferentes
ecossistemas brasileiros. Práticas florestais convencionais ainda não
são atrativas para médios e pequenos produtores por problemas de fluxo
de caixa e longos períodos de investimento. Contudo, esse comportamento
vem mudando pela utilização de SAFs, que permite a diversificação de
produtos florestais e agrícolas na mesma unidade de área, e geração de
renda e de empregos. Os benefícios de produção, sócio-econômicos e
ambientais manifestam-se a médio e longo prazo. Rodigheri (1997) e
Montoya (1999) demonstraram que, quando cultivos agrícolas são
introduzidos simultaneamente e/ou seqüencialmente nas entrelinhas de
espécies florestais, além do aproveitamento da aplicação de
fertilizantes nas espécies, tais cultivos contribuem para a amortização
do custo de implantação florestal, logo nos primeiros anos.
Montoya & Baggio (1992)
constataram que, quando introduz-se o componente arbóreo em áreas de
pecuária, o custo de implantação das árvores inicialmente pode reduzir a
renda da propriedade. Entretanto, essa redução pode ser, em parte,
compensada pela receita obtida pelo ganho de peso do gado, ou pelo
aumento da produção de leite beneficiado pelo sombreamento. Percebe-se,
também, que as propriedades rurais não estão aproveitando seu potencial
de transformação da matéria-prima florestal e agroflorestal em bens mais
elaborados, deixando de agregar valor dentro da cadeia produtiva
florestal e agroflorestal. Como exemplo de matéria-prima florestal, o
produtor vende uma árvore em pé (toras de pinus) ao preço reduzido de
2,4 dólares o metro cúbico. Se o produtor ao invés de vender as toras em
pé beneficiar a madeira, serrando-a e secando-a, aumentará seu valor
agregado, pois a madeira serrada de pinus vale 87 dólares o metro
cúbico, ou seja um valor 36 vezes mais alto.
Da mesma forma, os produtos
agroflorestais têm valor agregado, a partir do processamento da
produção. Contudo, essa agregação de valor só vai acontecer na medida em
que o produtor se especializar numa boa condução, com desbastes e podas
planejadas, no processo do beneficiamento da madeira e de outros
produtos agroflorestais. Isso pode ser feito através da organização de
pequenas e médias serrarias, marcenarias, ou pela participação em um
empreendimento de maior porte, através de associações de produtores.
Assim, além de ser uma alternativa para o aproveitamento de áreas
marginalizadas ou de menor valor da propriedade, a atividade
agroflorestal torna-se uma forma de diversificação da renda e uma nova
alternativa para o uso da mão-de-obra, pela flexibilidade do calendário
das operações culturais. No contexto regional, a importância econômica e
social é inquestionável na medida em que a cadeia agroflorestal pode
vir a ser uma forma de dinamizar a região em um novo eixo de
desenvolvimento com maior participação de produtores rurais, de
empresários do setor urbano e da população economicamente ativa, que não
encontra ocupação dentro da própria região.
Considerações Finais
Considerações Finais
A utilização de áreas com
vegetação florestal para agricultura ou pecuária tem resultado quase
sempre em um acentuado processo de erosão hídrica ou eólica e,
conseqüentemente, na degradação do solo, contaminação e assoreamento dos
aqüíferos, na redução da flora e fauna, em alterações de microclimas e
de ciclos biogeoquímicos (ciclo do carbono, da água, do nitrogênio),
além de implicar na supressão de áreas produtoras de alimento. A
utilização de SAFs é uma opção viável que concorre para melhor
utilização do solo, para reverter os processos de degradação dos
recursos produtivos, para aumentar a disponibilidade de madeira, de
alimentos e de "serviços ambientais" (conservação dos solos, controle
dos ventos, redução na contaminação da água e do ar, recuperação de
áreas degradadas, entre outros). Adicionalmente a esses aspectos, a
introdução do componente florestal no sistema, constitui-se em
alternativa de aumento de emprego e da renda rural. Apesar do
reconhecimento dos benefícios dos SAFs, o seu conhecimento e uso ainda
são limitados. Isto representa uma oportunidade para o desenvolvimento
de maiores ações de pesquisa, para a valorização dos benefícios
ambientais e de maiores incentivos econômicos que venham a estimular sua
implantação. Estes mecanismos são necessários para assegurar a
sustentabilidade dos sistemas agroflorestais, a equidade social e a
proteção ambiental.
Referências Bibliográficas:
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BAGGIO, A.J. Alternativas
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producción animal en suelos ácidos tropicales. Conferencia electrónica.







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